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Este não é um castelo qualquer. É um dos monumentos algarvios mais visitados e, naturalmente, um dos mais emblemáticos. O Castelo de Silves guarda as suas memórias ao lado de episódios que marcaram a história de toda a região.

O Castelo de Silves é obra da ocupação árabe, que nele transmitiu os seus melhores conhecimentos de arquitetura militar à época. Da autoria dos árabes Almorávidas no século XI, reflete o esplendor da civilização islâmica na época e a importância que a cidade obteve na altura, sendo considerada a 'capital' do Algarve. O castelo, construído em grés vermelho existente na região e taipa, tem a forma de um polígono irregular e é rodeado por uma cortina de muralhas.

A dar as boas vindas a todos os visitantes, está uma enorme porta principal, protegida por duas torres e pela casa do guarda. A sua cortina de muralhas inclui ainda outra torre e sete quadradelas. A norte, fica a 'porta da traição', que chama a atenção não só pelo nome, como também pelo facto de ser uma saída para o exterior.

O seu interior guarda vestígios islâmicos importantes. Os silos árabes, que serviam como depósitos de alimentos e com entrada por pequenas aberturas ao nível do solo, a Cisterna da Moura, com cerca de 10 metros de altura e quatro abóbodas assentes em colunas, e a Cisterna dos Cães, com 60 metros de profundidade.

A todos os visitantes, o Castelo de Silves oferece ainda um jardim e vista sobre a cidade, o vale e o Rio Arade. E não foram poucos os que em 2015 tiveram a oportunidade de usufruir destes privilégios, enquanto faziam uma viagem de 10 séculos pela história. Visitaram este monumento nacional, assim classificado desde 1910, mais de 232 mil pessoas.

A importância de Silves na região colocou-a como ponto prioritário na rota da conquista cristã. Dom Sancho I conquistou-a em 1189, mas dois anos depois, perdeu o controlo da cidade novamente para os almóadas.

Silves havia de ficar marcada e, em 1249, foi novamente conquistada e, desta vez, mantida sobre poder do Reino de Portugal. À porta do castelo, Dom Sancho I guarda atento o monumento, que atualmente constitui um pedaço importante da história algarvia.

Quando o século XVII decorria, estavam os Jesuítas longe de imaginar que o Colégio de Santiago Maior, fundado pelo então Bispo do Algarve D. Fernando Martins Mascarenhas, em Faro, haveria de ser uma sala de espectáculos de beleza indiscutível. Assim haveria de ser, depois de muitas voltas do destino, já no século XVI quando o espaço abriu ao público como Teatro Lethes.

A confiscação dos bens e a extinção da Companhia de Jesus ditaram que o edifício do Colégio haveria de ficar fechado, corria o ano de 1759. O espaço foi ocupado pelas tropas napoleónicas comandadas pelo general Junot e as suas instalações usadas para alojar os soldados, numa ocupação que devassou e profanou o espaço.

Em 1843, o médico italiano Lázaro Doglioni arrematou em hasta pública o edifício. Homem das artes, tinha o sonho de ver construído em Faro um teatro à semelhança do São Carlos, em Lisboa. Chamou-lhe Lethes, porque, escreveu a Revista Universal Lisbonense, "aquella caza servirá de princípio, pela reunião das famílias, para o esquecimento d'essas loucuras de políticas, que tanto nos tem apoquentado".

A antiga igreja do Colégio foi convertida então em sala de espectáculos. No lugar do altor-mor ficava a 'Sala Verde' e o coro foi transformado no respetivo palco. A inauguração haveria de ser feita com pompa e circunstância, a 4 de abril de 1845, associando-se às comemorações do aniversário da Rainha D. Maria II.

O Teatro Lethes estava a nascer para conquistar fama, não só no Algarve, mas por todo o País. O legado do Dr. Lázaro Doglini estava agora nas mãos do sobrinho Justino Cúmano, também ele médico, benemérito e protetor das artes, que não só manteve o legado do tio, como ainda o ampliou. Ao Teatro, aumentou-lhe a capacidade de espectadores, mandou construir uma caixa de ressonância abobodada e duplicou os camarotes.

Era a época do auge e o esplendor do Teatro, que tinha naquela altura uma orquestra e uma equipa técnica. Antes da viragem do século, a 11 de setembro de 1898, o Lethes foi escolhido, por ser o mais distinto espaço de Faro, para a primeira exibição daquilo a que chamavam o animatógrafo, que hoje se pode traduzir para cinema.

No início do século XX, a sala fechou para obras de restauro, reabrindo com uma confortável plateia, quatro ordens de camarotes, varandins de ferro forjado e tetos pintados com cenas musicais, da autoria do pintor José Filipe Porfírio.

A década de 20 marcaria o declínio do espaço, que encerra em 1925. Mais de 25 anos depois, é vendido à Cruz Vermelha Portuguesa, que ainda hoje detém o espaço. O Teatro haveria de 'regressar' a Faro e ao público. Foi casa da escola de música da Associação do Conservatório Regional do Algarve e espaço para os serviços regionais do Ministério da Cultura, após o protocolo com a Direção Regional da Cultura, que no início dos anos 90 fez algumas obras de melhoria e beneficência do edifício.

O Teatro manteve uma programação regular até 1998, mas a necessidade de se proceder a uma consolidação do edifício, levou o espaço a ser encerrado e novamente alvo de obras. O novo milénio marcaria também a nova vida do Teatro Lethes, com a reabertura ao público. Atualmente é gerido pela ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve e mantém uma programação cultural regular e diversa.

De Odeceixe (Aljezur) a Vila do Bispo há uma costa de maravilhas naturais que nos surpreendem a cada passo. São 60 quilómetros de encantos e riquezas que se escondem e revelam tão naturalmente como a natureza quase imaculada que aqui existe. É a Costa Vicentina, uma das áreas naturais mais bem preservadas, que se destaca pela sua paisagem imponente.

Esta faixa costeira, de caráter forte, selvagem e rochoso, tem um ambiente marcadamente atlântico, húmido e fresco, mas nas suas zonas meridionais também se faz sentir a influência mediterrânea. Dos contrastes surgem condições ecológicas únicas para as faunas marinha e terrestre e flora. Já foram identificadas mais de centenas de espécies de plantas e de aves.

Por aqui sucedem-se as praias, ora de areais extensos, ora pequenos encaixados entre as arribas rochosas. Quem não ouviu já falar das praias de Odeceixe, Arrifana, Vale dos Homens, Carriagem, Amoreira, Monte Clérigo, Castelejo, já considerada como a praia perfeita, entre muitas outras que convidam à aventura para as descobrir. Há quem as conheça não só pelo prazer da praia, mas também das ondas, ou não tivessem as ondas da Costa Vicentina fãs que vêm de todo o mundo para as surfar.

Muitos outros conhecem a Costa Vicentina dos seus trilhos pedestres, caminhos históricos, através dos quais se descobrem variados habitats naturais e se podem observar plantas endémicas e um grande número de espécies animais, quer em terra, quer a sobrevoar o céu.

É nesta terra única que a batata-doce encontrou um habitat perfeito. A batata-doce de Aljezur tem o selo de qualidade europeu que a identifica como produto de Indicação Geográfica Protegida e benefícios para a saúde não lhe faltam. E nas rochas, em particular de Vila do Bispo, esconde-se outra maravilha que integra as 50 experiências gastronómicas obrigatórias da Europa: os percebes. São produtos da terra e do mar que já merecem direito a festivais.


Nesta costa tão particular, o património une-se à natureza para se fundirem como se uma unidade fossem. Falamos da Fortaleza de Sagres e o Farol do Cabo São Vicente, no extremo sul da Costa Vicentina, construídos sobre as arribas em plena comunhão com a natureza. E quem não rende ao pôr-do-sol avistado a partir de Sagres?

Quem não a conhece de a ver crescer nas árvores um pouco por toda a região? Ou de a degustar nas mais variadas iguarias que a doçaria proporciona? A alfarroba está desde há muito presente na vida dos algarvios e é no Algarve que tão bem se dá.

A denominação alfarroba deriva da palavra árabe 'al karrub', mas já os egípcios a usavam na preparação das múmias. Terá sido introduzida pelos gregos da Ásia menor no Algarve, que, com uma percentagem de 95%, mantém a quase exclusividade da produção nacional, colocando o País como um dos três maiores produtores mundiais.

Uma das grandes qualidades da alfarroba é que todas as partes podem ser usadas, desde a vagem às suas sementes, o que aumenta o seu valor. E em indústrias tão diversas, como alimentar (como aditivo), farmacêutica (para dar forma a comprimidos), cosmética (para tornar os cremes ainda mais hidratantes), têxtil ou de papel.

A forma mais visível em que a encontramos é nas mais variadas receitas e formas de doçaria regional. Em tartes, bolos, tortas, biscoitos, sozinha ou acompanhada de outros produtos regionais como a amêndoa, o figo ou o mel. E deixe de lado a preocupação da dieta, é que a alfarroba é apelidada de 'chocolate saudável', devido ao baixo teor de gordura que possui e por isso um excelente substituto daquele ingrediente.

As qualidades nutritivas da alfarroba para a saúde estão comprovadas. A sua composição integra elementos com vantagens para o funcionamento do sistema nervoso, do raciocínio e da atividade mental, para o coração e para o melhor funcionamento dos intestinos. Além destes, funciona como antioxidante, ajuda a combater o colesterol, a controlar a glicémia e a proliferação de células cancerígenas.


O potencial da alfarroba é tão elevado que não nos admira que a semente tenha sido usada, durante muito tempo, como medida para pesar diamantes. Outra curiosidade é que agora também já pode degustar alfarroba em cerveja, através da Cerveja Moura, criada e produzida no Algarve.

São cristais riquíssimos aqueles que flutuam nas salinas do Parque Natural da Ria Formosa ou na Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António. É a mais fina flor que o Algarve pode conceder e muito apreciada. Falamos da flor de sal.

É na fina camada de espessura que cobre o sal grosso que se formam os cristais de flor de sal, devido ao processo de evaporação em condições climatéricas específicas. A sua recolha é um processo manual feito diariamente pelos marnotos e, depois de recolhida, não sofre qualquer processo de transformação.

Por ser 100% natural, retém melhor os nutrientes, como ferro, zinco, magnésio, iodo, flúor, sódio, cálcio, potássio e cobre. Mas a sua produção é escassa e a época produtiva diminuta. Talvez por isso haja quem também lhe chame 'caviar marinho'.

A designação não vem ao acaso. A flor de sal, que começou por ser usada em casa dos marnotos, realça o gosto natural dos alimentos, conferindo um cheiro e um paladar mais intenso a cada produto. Mas deve apenas ser usada um pouco antes de confeção ou depois dos alimentos confecionados e em pequenas doses. E o facto de ser muito apreciada entre os Chefs da cozinha gourmet contribuiu para a fama.

A flor de sal produzida no Algarve é das mais conceituadas a nível internacional. A associação francesa Nature e Progress atribuiu-lhe a certificação de alta qualidade. E a sua produção em Tavira tem a Denominação de Origem Protegida. Qualidade, excelência e autenticidade, três adjetivos que podem designar a flor de sal algarvia.

Para todos os que acreditavam que Sagres era 'onde a terra acabava e o mar começava', deve ter sido difícil acreditar na epopeia que aí vinha: os Descobrimentos. Mas a ambição do Infante Dom Henrique, o Navegador, foi mais forte que qualquer vacilo. Estava em marcha a era da globalização que conduziu o mundo aos levou aos dias de hoje.

O Algarve está intrinsecamente ligado à aventura de um povo que ousou desafiar o mar, cruzou cinco continentes, conheceu novas culturas e estabeleceu raízes "além da Taprobana", como escreveu Luís Vaz de Camões em 'Os Lusíadas. A marca pioneira da região nesta epopeia não vem ao acaso: o Algarve tinha vantagem no posicionamento geo-estratégico e o povo algarvio do litoral tinha uma relação, quase, umbilical com o mar. O Infante Dom Henrique reconheceu as potencialidades e instalou na região o centro nevrálgico dos Descobrimentos. Só após a sua morte, foram centralizados em Lisboa.

Os Descobrimentos portugueses marcaram o rumo da História mundial ao mesmo tempo que fundearam um vasto e riquíssimo património em vários pontos do Algarve. O mais reconhecível dessa época, e o mais visitado a sul do Tejo, é a Fortaleza de Sagres, onde se pode encontrar uma rosa-dos-ventos desenhada no chão e uma muralha corta-ventos. A poucos quilómetros, encontra-se o Farol do Cabo de São Vicente, construído no início do século XVI para contribuir para a segurança dos navegadores.

Lagos, que terá sido a terra natal de Gil Eanes, era por aquela altura o centro nevrálgico para caravelas que ali fundearam e navegadores que dali partiam em expedições, que permitiram descobrir as ilhas atlânticas e cidades do norte de África. As muralhas e as arcadas recordam a importância da localidade como entreposto de comércio e o Forte do Pau da Bandeira é um elemento representativo das fortificações marítimas. O título de 'capital dos Descobrimentos portugueses' assenta-lhe tão bem, que ali foi criado o Museu de Cera dos Descobrimentos.

Também Tavira teve um papel de relevo nesta época. Após a conquista de Ceuta, o Infante Dom Henrique foi armado cavaleiro nesta cidade, que viu partir muitos soldados para as conquistas do norte de África, sendo um porto de apoio a exércitos e armadas. Haveria também ser um porto de exportação de produtos nacionais, como peixe salgado, frutos secos ou vinho.


Os Descobrimentos marcaram uma época e continuam a marcar o património histórico-cultural do Algarve e das suas povoações, que se materializa em monumentos, palácios, igrejas, conventos, fortificações ou na réplica de uma nau quinhentista.

Das mãos de artesãos nasce um dos elementos mais tradicionais do Barrocal: a empreita. Sob a forma de ceiras, açafates, cestaria, chapéus esteiras ou malas de senhora, as folhas de palma entrelaçadas dão forma ao tradicional artesanato algarvio.

A arte da empreita surgiu da necessidade de transportar bens, essencialmente alimentares, como figo, alfarroba ou amêndoa, num tempo que em não havia a disponibilidade de outro tipo de sacos. Em açafates, ceiras ou cestaria, a arte popular tornou-se útil, em vassouras, tapetes, vasculhos, capachos, bases para mesa, fruteiras, revestimentos para garrafas, e popular, fazendo parte da decoração das habitações.

O nome deste tipo de artesanato provém de 'empreitada', que determinava o valor final do objeto pela quantidade e qualidade da matéria-prima usada: a folha de palma anã, um planta típica do Barrocal algarvio. As folhas são apanhadas verdes e deixadas a secar, divididas pelo tamanho. É este o elemento que define que tipo de objeto que pode ser feito. Podem ser usadas secas ou tingidas, para dar cores e desenhos que ornamentam a empreita.

O trabalho de entrelaçar as folhas de palma era responsabilidade das mulheres, principalmente quando havia menos trabalho no campo. E a arte é tão morosa e dolorosa para as mãos que é vista com respeito.

A empreita perdeu espaço na vida quotidiana com a chegada de objetos que a substituíam. Mas a sua arte fina nunca deixou de encantar e ganha agora fôlego com o projeto TASA e a empresa Companhia das Cestas, que produz objetos personalizados e acessórios que estão a conquistar celebridades internacionais.

Há duas coisas que são sinónimo de Algarve. Que atraem tantos os que cá moram, como os que visitam a região. A sua fama percorre mundo não só no verão, mas também no inverno. É isso mesmo: são a praia e o sol. Ou não fosse esta a região com quase 200 quilómetros de costa e mais de 300 dias de sol por ano.

O Algarve é a região do País com mais horas de sol em todo o ano. Diz, quem fez as contas, que são mais de 3000 horas distribuídas pelo fantástico verão, época alta do turismo, e pelas restantes estações, que atraem muitos à região à procura dos raios de luz e de temperaturas mais amenas, principalmente vindos do norte da Europa.

E quando esse sol que agracia algarvios e turistas, se une aos mais de 100 areais do Algarve temos a combinação perfeita. De Aljezur a Vila Real de Santo António são cerca de 200 quilómetros de praias tão distintas como ímpares, tão belas como deslumbrantes.

Nós até podemos ser suspeitos, mas a verdade é que a região tem conquistado sucessivamente o prémio de Melhor Destino de praia da Europa. E não há ranking internacional que não se atreva a não incluir praias algarvias entre as melhores do mundo. São os casos da Praia da Marinha, de Salema, do Castelejo ou de Benagil, só para falar das mais recentes premiadas.

E o que torna as praias algarvias, muitas com Bandeira Azul e Qualidade de Ouro, ainda mais especiais são os diferentes cenários: enseadas, falésias, grutas, rochas, amplos areais. Há as praias mais turísticas, as mais familiares, as mais românticas, as mais acessíveis, as mais isoladas, as mais selvagens ou naturistas. Com águas mais quentes, mais transparentes, mais tranquilas ou agitadas como as praias da Costa Vicentina. Há praias para todos os gostos, sem esquecer as fluviais, e não vai daqui ninguém sem encontrar o seu paraíso.

Se um algarvio lhe disser que "'Tá o mar fêto num cão", não se assuste, quer apenas dizer que o mar está revolto. Mas se alguém passar por si sem o cumprimentar e com cara feia, é caso para dizer "Moss marafado, já nem dás de vaia!". São expressões do falar algarvio, particulares da região e ainda mais específicas das diversas zonas do Algarve.

Apesar de algum desuso, os algarvios continuam a usar expressões e palavras que só os locais entendem com facilidade. É quase como se fosse um dialecto regional, em que expressões da língua nacional são transformadas e readaptadas à realidade local. Nas zonas rurais, devido ao prolongado isolamento a que o Algarve esteve sujeito, estes fenómenos linguísticos têm mais nítidas diferenciações, como nota Eduardo Brazão Gonçalves, autor do 'Dicionário de Falar Algarvio', mas no litoral, no Sotavento, no Barlavento ou em comunidades, há expressões e palavras que só entende quem de lá é, sem a ajuda de tradução.

Há expressões já muito conhecidas de todos como 'marafado', que significa que furioso, ou 'alcagoitas', que mais não é que amendoins, mas há outras que ainda deixam a pensar quem as ouve, como 'xoxa de velha' ou 'charinga-te'. A primeira é uma alforreca negra muito típica da Ria Formosa e a segunda quer dizer 'aborrecer', verbo que também é muito usado na expressão "charinga-te c'o corno, que'é pau que nã se gasta!"

Estas e outras cerca de mil expressões fazem também parte do livro 'Heróis à Moda do Algarve', de Miguel Brito de Oliveira, que integra a Coleção Heróis, uma recolha de expressões orais e dizeres típicos de cada região.

Mas não pense que basta dizer "vender aguardente" ou "tem avonde", para já falar algarvio. É preciso também o sotaque e a entoação, que até pode variar de zona para zona, como acentuar palavras sem acento ou terminar com 'e'. No fundo, as expressões algarvias são uma forma de falar "como imagem sonora, rica e expressiva do pensar e de o sentir de uma gente", sublinha Eduardo Brazão Gonçalves.

Já agora, 'vender aguardente' significa que alguém está desfraldado ou com a braguilha aberta e 'tem avonde' quer dizer 'já chega'.

As praias algarvias conquistam quem as visita. Mas nem só as areias caramelizadas e os longos banhos no mar apaixonam os visitantes. Também há quem venha pelas ondas, para seguir os seus desenhos, para as cortar, para as dominar em cima da prancha. São as ondas da Costa Vicentina que têm fãs de todo o mundo.

De Odeceixe ao Cabo de São Vicente, existe um spot ideal com cerca de 60 quilómetros de uma costa quase em estado selvagem. Como as ondas indomáveis das praias escondidas em falésias, que fascinam surfistas e bodyborders portugueses e estrangeiros.

Odeceixe, Carreagem, Arrifana, Canal, Vale Figueiras, Carrapateira, Amado, Cordoama, Ponta Ruiva, Beliche, Martinhal são destinos obrigatórios para quem gosta de 'partir ondas'. Nem todas são de fácil acesso, mas a adrenalina de as cavalgar começa com a conquista da bela paisagem natural.

"As ondas quebravam uma a uma / Eu estava só com a areia e a espuma / Do mar que cantava só para mim", escrevia Sophia de Mello Breyner Andresen no poema 'As Ondas', tão encantada com este mar, como os surfistas e bodyborders que escolhem a Costa Vicentina para momentos de adrenalina.

A beleza natural aliada à humanidade e à espiritualidade confere à Ponta de Sagres um catáter místico. Há quem lhe chame por isso o Promontório Sagrado, também pela vertente religiosa que assumiu desde tempos remotos. Por uma ou outra razão, o extremo sudoeste da Europa continental continua a atrair visitantes, que continuam sem desvendar o mistério deste local.

Os vestígios mais antigos encontrados na Ponta de Sagres datam do período Neolítico, entre o século quarto e o terceiro a.C., com a presença de menires e cromeleques a assinalar já a componente espiritual da zona.

O nome 'Sagres' deriva da presença romana na região. Também este povo se encantou pela região, onde o pôr-do-sol dava nova vida à agua. Da sua presença, restam ainda uma residência, termas e tanques de salga de peixe e até um centro de cerâmica com três fornos que seriam usados na produção de âncoras.

Já durante o período cristão, foi construída uma ermida em honra de São Vicente, cujo corpo ali terá dado à costa. A Igreja do Corvo, nome dado pelo pássaro que seguia o cadáver do mártir, chamou ao apelo de peregrinos, que ali rumaram durante séculos, mesmo quando a Dinastia Omíada já governava a região e a ermida se passou a denominar Kaniçat al-Ghurab, juntando cristãos e muçulmanos.

"Aqui onde termina a terra e o mar começa" havia de marcar também o início de uma nova era a uma escala, à época, desconhecida. Seria no cabo do mundo, como durante séculos foi conhecido, que o Infante Dom Henrique delineou os planos para conquistar além mar. Essa primeira marca na globalização valeu ao Promontório o título de Património Europeu, atribuído pela União Europeia.

A Fortaleza de Sagres, um prolongamento humano do rochedo natural, foi construída durante o século XV, durante os planos expansivos portugueses. A sua importância levou o pirata Sir Francis Drake a destruí-la durante o século XVI. Mais tarde voltou a ser reconstruída e foi durante séculos a principal praça de guerra do sistema marítimo geo-estratégico. Atualmente está classificada como Monumento Nacional e é o espaço cultural mais visitado a sul do Rio Tejo.

Meu Algarve encantador
P’ra o poeta e p’ra o pintor
Tem motivos de sobejo…
Até eu, se tivesse arte,
Queria, ao mundo mostrar-te
Como te sinto e te vejo.
António Aleixo, in Algarve (por dentro e por fora)

Começamos esta alma algarvia com um poema de António Aleixo, nascido em Vila Real de Santo António e afamado em Loulé, onde ganhou forma de estátua. O Algarve esteve no coração do poeta como está em tantos outros que escrevem por esse mundo fora com o orgulho de serem algarvios.

Da literatura atual saltam à vista Lídia Jorge e Nuno Júdice, ambos com inúmeras obras publicadas e quase outros tantos prémios conquistados. Recordemos apenas os últimos: a escritora nascida em Albufeira venceu o prémio Urbano Tavares Rodrigues em 2015, com o romance 'Os Memoráveis', e o autor oriundo da Mexilhoeira Grande conquistou o Prémio Ibero-Americano Rainha Sofia de Espanha, em 2013. E inspiração é coisa que não lhes falta. A eles e a Teresa Rita Lopes, Gastão Cruz ou Casimiro de Brito.

Outros há que ficam para a história da escrita algarvia, quer em prosa ou poesia: António Assis Esperança, Bernardo dos Passos, Casimiro de Brito, Júlio Dantas, João Lúcio, Tóssan, António Ramos Rosa, João de Deus, só para nomear alguns.


E há ainda aqueles que não sendo algarvios de terra, o eram no coração, dedicando versos e frases sem conta à região. Assim o fizeram Raúl Brandão, Eugénio de Andrade ou Sophia de Mello Breyner Andresen. Porque o Algarve que se sente, escreve-se para o mundo.

É um facto que muitos desconhecem: a Ria Formosa tem a maior comunidade de cavalos-marinhos do mundo. Na sua maioria pertencem à espécie cavalo-marinho de focinho-longo (hippocampus guttulatus), mas também na Ria habitam cavalo-marinho de focinho curto (hippocampus hippocampus). Outro facto desconhecido é que estão em vias de extinção.

A colónia de cavalos-marinhos foi descoberta na Ria Formosa no início do século XXI, pela bióloga canadiana Janelle Curtis. Nessa altura, ainda muitos pensavam que o cavalo-marinho era uma espécie mitológica, como o unicórnio. Mas não. Era real e havia aos milhares na Ria.

Mas ainda assim não deixam de ser uma espécie especial. São os machos que dão à luz. As fêmeas produzem os ovos que colocam numa bolsa na parte frontal do macho, a quem compete fertilizá-los por um período entre dez dias e seis semanas. Antes do nascimento das crias, as fêmeas fazem uma dança com estranhos movimentos em direção à superfície. As crias crescem muito depressa, mas os cavalos-marinhos vivem, em média, cinco anos.

As águas calmas e temperadas da Ria Formosa proporcionam um habitat fantástico para estas criaturas que não são boas nadadoras – ao contrário da maioria dos peixes, nadam na vertical. As pradarias marinhas extensas da Ria têm a dupla função de servir de fonte de alimento e de abrigo.

Inicialmente foram descobertos cerca de dois mil indivíduos das duas espécies. Contudo, o número tem vindo a diminuir devido, principalmente, à pesca de arrasto, mas também à poluição, à ação humana e à diminuição de plantas marinhas no fundo da Ria. É por isso que estão protegidos e têm sido alvo de esforços para serem preservados.

É um ícone da gastronomia algarvia e não há restaurante que se preze que não a tenha na sua ementa. A cataplana junta na mesma mesa os sabores do mar, do barrocal e da serra, bem acompanhados de ervas aromáticas. É a junção desses sabores ricos que tanto atrai o paladar de algarvios e turistas.

O termo cataplana tanto denomina o prato como o utensílio em que é cozinhada. A panela metálica, originalmente de cobre ou latão, é formada por duas partes côncavas, unidas por uma dobradiça e fechos que permitem que se unam de forma estanque. Os alimentos são cozinhados a vapor, a baixa temperatura e de forma lenta.

Da origem da cataplana na gastronomia algarvia pouco se conhece. Pensa-se, apesar de não haver registos, que se terá difundido por influência árabe, uma vez este tipo de utensílio tem conexão com a 'tijane' de barro, usada por povos do Norte de África. Mas há também quem diga, de forma ainda menos documentada, que poderá ter sido inspirada em bivalves da Ria Formosa, como as amêijoas, devido às semelhanças físicas e ao facto de serem muito usados em diversas receitas.

A mais famosa das cataplanas é a de peixe e marisco, mas cada receita pode incorporar quase todos os sabores que a imaginação e o gosto conseguirem unir ou os produtos típicos da zona geográfica onde é confecionada.

No litoral, as cataplanas vivem de peixes e os mariscos. Há de bivalves, sardinha, raia e amêijoas ou mexilhões e beldroegas, de camarão, de polvo com batata-doce, de litão e feijão-branco ou de barriga de atum, só para dizer algumas.

Já no Barrocal algarvio, predominam os sabores da terra e as carnes domésticas, como borrego com figos, galinha com batata-doce, ervilhas com chouriço, favas com enchidos e entrecosto, peras, vinho e especiarias ou de bacalhau.

E para manter o apetite subimos à serra, onde encontramos os sabores da caça conjugadas com produtos locais e peixes de rio. É o caso da cataplana de lebre, de javali, de perdiz com cogumelos-silvestres, de coelho-braco e túberas, de enguias com milho branco, de peixe-mujo com hortelã da ribeira, de lampreia, achigã e poejo ou migas de pão com café.

Com tanta variedade, o difícil é escolher. A cataplana é por si um símbolo do património gastronómico algarvio que partilha a notoriedade com os melhores sabores da região.