O Rio Guadiana corre silencioso na margem algarvia. Atento, observa tudo quanto por aqui se passa. Rasga os vales e as planícies com a calma a que as terras e as gentes obrigam. De Alcoutim a Vila Real de Santo António, é ele quem guarda (ou revela) os segredos de cá e de lá.
Quando o Rio Guadiana nasceu, havia de guardar entre os seus mais de 800 quilómetros, a melhor área navegável para o Algarve. São 68 quilómetros desde a foz, em Vila Real de Santo António, até Mértola, já no Alentejo. E em cada metro há uma história para contar, que as águas tranquilas do rio não levam nem apagam.
Ainda antes de fazer fronteira entre dois países, já o Guadiana, ou 'Ana' como os romanos lhe chamavam, havia de ser um canal de excelência para o transporte de bens. A ocupação islâmica da Península Ibérica havia de lhe introduzir a prefixo 'uad', que em árabe significa rio. O nome evoluiu para Odiana em Portugal e Guadiana em castelhano, termo que acabou por vingar na segunda metade do século XVI, à conta da influência espanhola e do período governativo dos 'Filipes' em Portugal.
O Guadiana era já por essa altura o rio com a responsabilidade de guardar as margens de dois países. E nele circulava todo o tipo de mercadorias, desde malas de correio até ao minério de São Domingo.
O rio haveria ainda de unir aquilo que a Natureza separou. Nas suas águas, faziam-se negócios, muitos na calada da noite. Quando a necessidade assim obrigava e a lei não o permitia, houve muito café, açúcar, sabão, ovos, farinha, pão ou tabaco a trocar de margem. E de lá vinha roupa, sabonetes, perfumes, conhaque, miolo de amêndoa e até alfaias. Tudo transportado às costas ou em cordas que a corrente permitia. A Via Algarviana recupera estas histórias com a Rota do Contrabandista.
Mas o 'Rio Guadiana querido', como o cantavam algarvios e alentejanos, também era fonte de sustento lícito. A riqueza das suas margens permitia o cultivo de cereais, enquanto as suas águas proporcionavam a pesca de tainhas, barbos, lampreias e enguias.
Mesmo na fronteira do Algarve, o Rio Guadiana está intrinsecamente ligado à região e à alma algarvia. Tanto que até há um Museu do Rio, em Guerreiros do Rio, Alcoutim, onde se podem encontrar estas e muitas outras histórias do quarto maior rio da Península Ibérica.

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