terça-feira, 19 de abril de 2016

No interior de um arraial de pesca de atum


Durante meio ano dezenas de famílias inteiras deixavam as suas casas e mudavam-se para o arraial de apoio à pesca de atum. Ali viviam em comunidade numa aldeia à escala pequena. Foi assim durante décadas no Arraial Ferreira Neto, uma das estruturas montadas junto à Ria Formosa e que ainda hoje persiste depois de ter sido recuperado como unidade hoteleira.
 
O Arraial Ferreira Neto foi construído do lado interior da Ria Formosa em 1941 para substituir o Arraial Medo das Cascas (nome que recebeu pela enorme quantidade de cascas de ostras que havia no local), que se situava na ilha de Tavira e que foi desativado em virtude das difíceis condições climatéricas que colocaram em causa os edifícios.
 
O Arraial, a que foi dado o nome de um dos administradores da Companhia das Pescarias do Algarve que muito lutou pelos pescadores, foi desenhado com o conceito de uma unidade urbana, estando as habitações independentes das áreas de transformação e armazenamento do atum. No total, era possível que ali vivessem 150 famílias e que tinham tudo o que precisavam: mercearia, café, barbearia, escola e até capela, oferecida em 1958 por um magnata de Tavira e que tinha capelão, a quem competia benzer os as redes, os pescadores e as embarcações e que recebia a primeira pescaria da época. Ainda hoje é possível ali fazer casamentos e batizados.
 
O número de pessoas que participava nas campanhas variava de ano para ano, mas há registos de ali terem vivido mais de 450 pessoas. As casas dos camaradas eram espaços de poucos metros quadrados onde chegavam a viver até oito pessoas, contando as crianças.
 
Tantas pessoas a conviver num espaço tão exíguo dava, por vezes, confusão. Junto à porta principal do arraial, virada para a Ria Formosa, estava a casa dos patrões e a torre de vigia, de onde se pode ver todo o arraial e a almodrava, o conjunto de redes da pesca do atum. Esta vigia servia para controlar e assentar todos os acontecimentos da comunidade num diário de bordo, como por exemplo as zaragatas ou as bebedeiras, punidas com três níveis de pena: na primeira vez, o envolvido perdia o subsídio diário de 10 escudos, na segunda vez era levado à capitania e podia ser preso e, à terceira vez, podia ser expulso.
 
Durante três décadas, o Arraial funcionou em pleno com grandes campanhas de pesca. No mar estava instalada durante vários meses a almodrava, um estrutura complexa de redes com 9 quilómetros de comprimento e 3 kms de largura, 20 barcos e cerca de 300 pessoas. A armação era montada no início da campanha e desmontada apenas meses depois, capturando durante esse tempo o atum de direito, que ia gordo desovar no Mar Mediterrâneo, e o atum de revés, que vinha de regresso já magro. Para atrair o atum eram colocados no areal junto ao Arraial vários montes de variedades de peixe, que serviria com isco. Um pescador era chamado e, de costas, sem saber o que estava a selecionar, destinava cada monte a um barco diferente.
 
A década de 70 é dramática para a captura de atum no Algarve. Em 1971, é apanhado apenas um atum, número repetido no seguinte. Era o fim do Arraial Ferreira Neto enquanto base de apoio à pesca do atum.
 
Durante os anos seguintes, os edifícios serviram de habitação para pescadores e, após 1974, receberam emigrantes portugueses retornados de Angola. Mas em 1991, dava-se o seu encerramento do Arraial, que nos anos seguintes se viu votado ao abandonado, ao vandalismo e até à pilhagem.
 
Em 1996 foi comprado pela Vila Galé para a instalação de uma unidade hoteleira. A Companhia de Pescarias do Algarve acedeu ceder as instalações com uma condição: manter as caraterísticas do complexo o mais possível similares ao original. O acordo foi cumprido e ainda hoje os quartos, que antes eram as habitações dos pescadores, mantêm o chão de Santa Catarina ou de Santa Teresa.


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