Durante
meio ano dezenas de famílias inteiras deixavam as suas casas e
mudavam-se para o arraial de apoio à pesca de atum. Ali viviam em
comunidade numa aldeia à escala pequena. Foi assim durante décadas
no Arraial Ferreira Neto, uma das estruturas montadas junto à Ria
Formosa e que ainda hoje persiste depois de ter sido recuperado como
unidade hoteleira.
O
Arraial Ferreira Neto foi construído do lado interior da Ria Formosa
em 1941 para substituir o Arraial Medo das Cascas (nome que recebeu
pela enorme quantidade de cascas de ostras que havia no local), que
se situava na ilha de Tavira e que foi desativado em virtude das
difíceis condições climatéricas que colocaram em causa os
edifícios.
O
Arraial, a que foi dado o nome de um dos administradores da Companhia
das Pescarias do Algarve que muito lutou pelos pescadores, foi
desenhado com o conceito de uma unidade urbana, estando as habitações
independentes das áreas de transformação e armazenamento do atum.
No total, era possível que ali vivessem 150 famílias e que tinham
tudo o que precisavam: mercearia, café, barbearia, escola e até
capela, oferecida em 1958 por um magnata de Tavira e que tinha
capelão, a quem competia benzer os as redes, os pescadores e as
embarcações e que recebia a primeira pescaria da época. Ainda hoje
é possível ali fazer casamentos e batizados.
O
número de pessoas que participava nas campanhas variava de ano para
ano, mas há registos de ali terem vivido mais de 450 pessoas. As
casas dos camaradas eram espaços de poucos metros quadrados onde
chegavam a viver até oito pessoas, contando as crianças.
Tantas
pessoas a conviver num espaço tão exíguo dava, por vezes,
confusão. Junto à porta principal do arraial, virada para a Ria
Formosa, estava a casa dos patrões e a torre de vigia, de onde se
pode ver todo o arraial e a almodrava, o conjunto de redes da pesca
do atum. Esta vigia servia para controlar e assentar todos os
acontecimentos da comunidade num diário de bordo, como por exemplo
as zaragatas ou as bebedeiras, punidas com três níveis de pena: na
primeira vez, o envolvido perdia o subsídio diário de 10 escudos,
na segunda vez era levado à capitania e podia ser preso e, à
terceira vez, podia ser expulso.
Durante
três décadas, o Arraial funcionou em pleno com grandes campanhas de
pesca. No mar estava instalada durante vários meses a almodrava, um
estrutura complexa de redes com 9 quilómetros de comprimento e 3 kms
de largura, 20 barcos e cerca de 300 pessoas. A armação era montada
no início da campanha e desmontada apenas meses depois, capturando
durante esse tempo o atum de direito, que ia gordo desovar no Mar
Mediterrâneo, e o atum de revés, que vinha de regresso já magro.
Para atrair o atum eram colocados no areal junto ao Arraial vários
montes de variedades de peixe, que serviria com isco. Um pescador era
chamado e, de costas, sem saber o que estava a selecionar, destinava
cada monte a um barco diferente.
A
década de 70 é dramática para a captura de atum no Algarve. Em
1971, é apanhado apenas um atum, número repetido no seguinte. Era o
fim do Arraial Ferreira Neto enquanto base de apoio à pesca do atum.
Durante
os anos seguintes, os edifícios serviram de habitação para
pescadores e, após 1974, receberam emigrantes portugueses retornados
de Angola. Mas em 1991, dava-se o seu encerramento do Arraial, que
nos anos seguintes se viu votado ao abandonado, ao vandalismo e até
à pilhagem.
Em
1996 foi comprado pela Vila Galé para a instalação de uma unidade
hoteleira. A Companhia de Pescarias do Algarve acedeu ceder as
instalações com uma condição: manter as caraterísticas do
complexo o mais possível similares ao original. O acordo foi
cumprido e ainda hoje os quartos, que antes eram as habitações dos
pescadores, mantêm o chão de Santa Catarina ou de Santa Teresa.

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