sexta-feira, 15 de abril de 2016

O algarvio que morreu no Titanic


Eram 12:15 do dia 10 de abril de 1912 quando o maior e mais luxuoso navio transatlântico levantava âncora para a sua primeira viagem. Southampton, Inglaterra, fervilhava de emoção entre os passageiros que iam inaugurar o Titanic, os familiares e amigos que os viam partir ou os simples curiosos encantados com a fama já conquistada pelo navio. Haveria de ser coisa de pouca dura. Apenas quatro dias depois, o Titanic estaria afundado no Oceano Atlântico, juntamente com milhares de pessoas. Dos quatro portugueses que seguiam a bordo, um era algarvio e três madeirenses. Nenhum sobreviveu ao maior desastre marítimo em tempo de paz.
 
José Joaquim de Brito começou a grande viagem que foi a sua vida às 06:00 do dia 16 de abril de 1880 em São Clemente, Loulé, segundo o livro da paróquia. A data da tragédia dá-se na véspera de cumprir 41 anos. Em 1912, José de Brito, casado, era um homem de 1,62m, olhos acinzentados, cabelos castanhos, rosto comprido, nariz e boca regulares. Foi esta a descrição que que ficou assente no passaporte número 325 atribuído pelo Arquivo Municipal de Faro, e divulgado pela revista 'Sábado'.
 
Munido deste passaporte, o algarvio haveria de embarcar em Southampton. O destino final era São Paulo, Brasil, onde pretendia reunir-se com os pais, que lá viviam e onde o próprio tinha vivido. Mas em vez de comprar uma passagem direta entre Inglaterra e o Rio de Janeiro, uma carreira regular à época, o algarvio decidiu fazer um desvio com passagem em Nova Iorque. José de Brito comprou um bilhete de 2ª classe, o que significa que gozava de um razoável nível de vida. A site Encyclopedia Titanica, que reúne informação sobre os mais de 1300 passageiros do navio, revela que o algarvio tinha o bilhete nº 244360, que custou à época 13 libras, que equivaleriam hoje a 1212 euros. A última morada indicada era Londres e o contacto era Fred Duarte, residente em 34 Mulgrave Street, Liverpool. Terá sido este a escrever ao Jornal de Notícias uma carta, publicada na primeira página a 27 de abril, a dar conta da morte de "um estimadíssimo rapaz", português, de nome José de Brito, que seguia de Londres para Nova Iorque, donde iria depois para S. Paulo juntar-se com a família".
 
Antes de embarcar no Titanic, José de Brito era já um viajante. Não se sabe como mas do Algarve viajou até São Paulo, onde trabalhou numa loja. Seguiu mais tarde para Itália e depois para Inglaterra, onde arranjou trabalho na agência bancária Pinto Leite & Nephews, que tinha escritórios abertos em Liverpool, Manchester e Londres. Foi nesta última agência que este dois anos, onde "alcançou gerais simpatias", segundo relato do sr. B da Silva Salazar, que escreveu ao Diário de Notícias.
 
O bilhete para a segunda classe, significava José de Brito iria viajar com algum conforto. O seu quarto teria secretária, sofá, armário e roupa de cama trocada todos os dias. Mordomias inferiores à 1ª classe do Titanic, mas semelhantes às encontradas nos melhores cómodos de outros navios da época. Aberto ao público, tinha ainda uma sala de fumar, biblioteca, sala de jantar e convés de passeio coberto. O que não tinha era passagem para as outras classes: 1ª e 3ª, onde viajavam os três madeirenses, mortos também no maior desastre marítimo em tempo de paz.
 
O nome de José de Brito e dos restantes 1316 passageiros, e dos quase 900 tripulantes, em que incluía o capitão Edward Smith, poderiam ter ficado na história como os primeiros a completar a viagem inaugural do Titanic. Mas na noite de 14 de abril de 1912 tudo se precipitou. Eram 23:40 quando o indestrutível navio chocou com um icebergue. Edward Smith ignorara os avisos do SS Californian, um barco que passava na zona, para a existência de grandes blocos de gelo.
 
Numa noite escura, sem nuvens na Lua e águas calmas, o Titanic, nome que deriva da palavra 'titã', os primeiros passageiros a acordados para a tragédia eram os da 3ª classe. O navio havia embatido no icebergue e grandes massas de água e gelo começaram a penetrar no indestrutível navio. Pouco depois da 01:00 do dia 15 de abril, o Titanic submergia nas águas atlânticas.
 
Não se sabe o que aconteceu aos portugueses. Se os corpos ficaram presos no navio por não haver passagem entre as diferentes classes, em particular para a 1ª onde estavam os botes salva-vidas, que como se veio a provar eram insuficientes para evacuar todos os passageiros, ou se afogaram nas águas gélidas do Oceano Atlântico. Os corpos nunca foram recuperados e, se foram, era impossível identificá-los, como se pode ler na página Encyclopedia Titanica.

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