Até ao início do século XX, as mulheres algarvias cobriam-se da cabeça aos pés com um manto preto. O bioco dava a quem o usava um poder de liberdade incomparável. Por isso, foi proibido em 1892 e esteve ausente dos guarda-roupas femininos durante um século. Mas agora largou o pó e está a reinventar-se.
Pelas ruas do Algarve, era tradicional as mulheres usarem uma capa negra que, inclusivamente, lhes cobria a cara. E aí assentou o problema do bioco: dava demasiada liberdade a quem o usava. As autoridades desconfiavam que as mulheres poderiam cometer crimes, como furtos ou prostituição, a cobro deste manto, sem que a sua identidade fosse descoberta.
E a sua fama só piorava quando também se desconfiava que os homens a usavam com os mesmos fins. A má reputação acabou por ditar a sentença de morte: o uso do bioco em ruas e mercados foi oficialmente proibido pelo então Governador Civil de Faro, José Lourenço Pinto, em 1892. Na altura, na opinião pública, escritores, poetas, jornalistas trocaram argumentos favoráveis e contrários ao uso deste manto preto. Muitas vozes se elevaram em defesa do bioco, principalmente mulheres, que o consideravam um elemento de liberdade. O bioco tentou resistir e, nos primeiros anos do século XX, ainda podia ser visto em algumas ruas algarvias.
Aliado à má fama, juntou-se um sentimento de modernização do vestuário feminino a que o bioco também não conseguiu resistir. Apesar de ser tradicional do Algarve, existia também em alguns países europeus, onde acabou por cair em desuso face à nova moda que se instalava. Longe dos armários femininos, o manto preto usado pelas mulheres algarvias ficou imortalizado no Museu do Traje, em São Brás de Alportel, que guardou até aos dias de hoje um exemplar. O bioco pode ser comparado ao que nos dias de hoje conhecemos como burqa, a veste que as mulheres são obrigadas a usar em alguns regimes radicais islâmicos. Contudo, e apesar de se pensar que tem origem árabe, o manto nunca teve qualquer conotação religiosa e, ao invés de tirar, dava liberdade aos seus usuários.
Mai de cem anos depois, o bioco está a ressuscitar. A designer e empresária Lurdes Silva, através da marca 'Bioco Tradition', está a reinventar o traje tradicional algarvio, adaptando-o à moda atual. Além de ter ficado mais curto, ganhou cor e estilo e até existe em duas versões: inverno e verão. As mulheres vão poder voltar a usar o bioco, apesar de já não conceder a mesma liberdade de outros tempos.
Não se sabe se as palavras de Raúl Brandão em 'Os Pescadores', editado pela primeira vez em 1923, voltarão a ser atuais, mas ficará para sempre o encanto do bioco: "É um trajo misterioso e atraente. Quando saem, de negro, envoltas nos biocos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos e não as vemos. Mas o lume do olhar, mais vivo no rebuço, tem outro realce… Desaparecem e deixam-nos cismáticos. (...) É uma mulher esplêndida que vai para uma aventura de amor? De quem são aqueles olhos que ferem lume?… Fitou-nos, sumiu-se, e ainda – perdida para sempre a figura – ainda o som chama por nós baixinho, muito ao longe – cloque…".

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